2020 chegou. E a gente ainda tem dificuldade para conversar sobre o abuso sexual infantil

phpThumb_generated_thumbnailCada vez que vemos uma notícia ou sabemos de algum caso de abuso sexual contra crianças, mães e pais sentem o sangue gelar. Junto a nossa indignação, é inevitável o medo de que o mesmo aconteça com nossos filhos.

A gente queria que nunca acontecesse. Mas já pode até ter acontecido… O abuso sexual infantil é uma triste e alarmante realidade. Não uma ameaça distante. E entre crianças com deficiência o risco ainda é maior. Chega de adiar essa conversa!!!

O que podemos fazer pra enfrentar essa situação de frente?

Falar sobre o assunto

A violência sexual contra crianças e adolescentes ainda é um tabu. Sendo assim, de acordo com a Childhood Brasil, falar sobre  a questão é um passo muito importante. Saber que o problema existe é uma forma de proteger crianças e adolescentes, que pode aumentar as denúncias e, consequentemente, a responsabilização dos agressores.

Mas a melhor forma de enfrentamento à violencia sexual infantil é através da PREVENÇÃO. E isso é papel da família, da escola e da sociedade em geral. Não podemos estar ao lado de nossos filhos o tempo todo, por isso devemos preparar as próprias crianças para conhecerem seu corpo e saberem se proteger.

Quando seu filho tinha 3 anos, a promotora americana Jill Starishevsky procurou material que a ajudasse a conversar com ele sobre o assunto e não encontrou. Resolveu então escrever o livro “My Body Belongs to me” (Meu corpo é meu). No artigo abaixo, a promotora lista uma série de justificativas que os pais costumam dar para NÃO conversar sobre prevenção contra abuso com seu filhos:

Jill Starishevsky 

Trabalhei em casos de abuso infantil e crimes sexuais na cidade de Nova York nos últimos dezenove anos e já ouvi todos os motivos alegados pelos pais para não conversarem com seus filhos sobre abuso como forma de prevenção. Eu já ouvi essas desculpas tantas vezes que posso recitá-las de cor. Decidi que seria uma boa ideia listar as 10 principais razões para não discutir o assunto e comentar cada uma delas.

Convido você a adicionar qualquer outra que possa ter omitido.

1. AS CRIANÇAS RARAMENTE SÃO VÍTIMAS DE ABUSO SEXUAL. Na verdade, de acordo com os Centros de Controle de Doenças dos EUA, nos Estados Unidos, 1 em cada 4 meninas e 1 em cada 6 meninos são vítimas de abuso sexual até os 18 anos. Reflita sobre esses números por um momento. Eles são chocantes e devastadores. Só esses números já deveriam motivar os pais a procurar estratégias de prevenção.

2. ESSE TIPO DE COISA NÃO ACONTECE ONDE MORAMOS. Na verdade, o abuso sexual infantil não tem limites socioeconômicos. Não importa se você é preto ou branco, rico ou pobre ou que religião você pratica. Pode aparecer quando você menos espera.

3. NÃO DEIXAMOS NOSSOS FILHOS SE APROXIMAREM DE ESTRANHOS. Na verdade, 93% de todo abuso sexual infantil ocorre nas mãos de alguém conhecido, em quem os pais confiam. Mesmo que uma criança nunca esteja perto de estranhos, ela poderá ser vítima de um vizinho, um treinador, um religioso ou um membro da família. Os pais que ensinam que o perigo está apenas entre estranhos estão prestando um desserviço ao filho.

4. MEU FILHO NÃO TEM IDADE SUFICIENTE PARA ESSA CONVERSA. Na verdade, a idade apropriada para começar a falar sobre a prevenção de abuso sexual infantil é quando a criança tem três anos de idade. O papo pode começar simplesmente com “Você sabia que as partes do seu corpo cobertas pelo biquini ou sunga são íntimas e ninguém mais pode ver ou tocar?” Continue a conversa explicando à criança que ela deve contar a mamãe, papai ou professor, se alguém tocar nessas partes íntimas. Deixe claro que há algumas exceções, como quando estiver aprendendo a xixi no penico, na ajuda com a higiene e consultas médicas.

5. NÃO QUERO ASSUSTAR MEU FILHO. Na verdade, quando o assunto é abordado da forma apropriada, as crianças se sentem confiantes e não ficam assustadas. Os pais não deixam de ensinar a atravessar a rua porque têm medo de que seus filhos sejam atropelados. Também devemos ensinar sobre a segurança corporal.

6. EU SABERIA SE ALGO ACONTECESSE COM MEU FILHO. Na verdade, o abuso sexual infantil é difícil de detectar, porque frequentemente não há sinais físicos do abuso. Os sinais emocionais e comportamentais que podem acompanhar o abuso sexual podem ser causados por uma série de outras razões.

7. MEU FILHO ME DIRIA SE ALGO ACONTECESSE COM ELE. Na verdade, a maioria das crianças não conta imediatamente quando foram abusadas sexualmente. Ao contrário de uma criança que cai e corre para contar aos pais, é provável que uma criança que foi abusada sexualmente não conte a ninguém porque ninguém vai acreditar nela, porque as pessoas dizem que a culpa é dela, porque contar vai causar grande tristeza na família ou porque o abusador frequentemente diz que o abuso deve ficar em segredo.

8. NUNCA DEIXAMOS NOSSO FILHO SOZINHO COM ADULTOS. Na verdade, as crianças podem ser abusadas sexualmente por outras crianças. As mesmas lições que podem ajudar a impedir que crianças sejam abusadas sexualmente por adultos podem protegê-las de outras crianças. Ensine às crianças o que é apropriado e o que não é, ensine a terminologia correta para suas partes íntimas e ensine com quem elas podem conversar se alguém tocá-las de uma maneira que as faça sentir desconfortáveis.

9. EU NÃO QUERO COLOCAR PENSAMENTOS NA CABEÇA DELA. Na verdade, não há dados que indiquem que uma criança que foi ensinada sobre prevenção contra o abuso sexual infantil tem mais probabilidade de inventar que foi abusada sexualmente. Segundo Victor Vieth, diretor do Centro Nacional de Treinamento em Proteção à Criança da Universidade Estadual de Winona, “as crianças mentem, mas raramente sobre terem sido abusadas. Todos os seres humanos podem mentir, mas é difícil para as crianças mentirem sobre sexo. Eles não podem mentir sobre algo que não têm conhecimento”, disse ele, e as crianças não aprendem sobre sexo oral na Vila Sésamo.

10. ISSO NÃO VAI ACONTECER COM MEU FILHO. Na verdade, como as estatísticas revelam, o abuso sexual infantil é tão disseminado que pode acontecer com qualquer criança. Esse é o motivo principal para agir. Pais educados, cuidadosos e afetuosos me disseram isso. Se alguém perguntasse a qualquer mãe ou pai cujo filho foi abusado sexualmente, se eles achavam que seu filho seria abusado sexualmente, posso garantir que cada um deles diria que não.

Ninguém quer acreditar que isso PODE acontecer com seu filho. Precisamos parar de NEGAR que isso possa acontecer e reconhecer que existem maneiras de IMPEDIR que isso aconteça. Tome a decisão de conversar com sua filha ou seu filho sobre prevenção de abuso sexual em 2020. Pode ser o melhor presente que você já deu a ela ou a ele.

Jill Starishevsky é advogada assistente do distrito de Nova York, onde processou milhares de criminosos sexuais e dedicou sua carreira a buscar justiça para as vítimas de abuso e abuso infantil. Ela é autora do livro infantil “My body belongs to me” (Meu corpo é meu).

Então, qual sua razão para continuar evitando o assunto? Vamos conversar sobre isso?

Texto, tradução e adaptação: Patricia Almeida

Fontes: https://www.childhood.org.br/a-violencia-sexual-infantil-no-brasil

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