Aécio quer virar a mesa no tapetão

marcos-augusto-Renato-ParadaNão é tarefa simples, mas o PSDB está fazendo tudo para superar o PT em mediocridade política. Não se sabe dos tucanos emplumados qual tem sido mais infeliz e calhorda em suas manifestações. Bem, na verdade sabe-se: Aécio Neves. Definitivamente, o fracasso eleitoral subiu-lhe à cabeça.

Dolorido e inconformado com a derrota, comporta-se como o garoto mimado que pega o carro importado e sai em disparada desrespeitando sinais, como prova de sua superioridade.

Sim, a campanha de Dilma foi um estelionato e ela mesma –uma invenção de Lula– não reúne as qualidades desejáveis para o exercício do cargo. Mas o detalhe é que foi eleita. E o fato de que tenha perdido popularidade não basta para legitimar um movimento por sua remoção do poder.

Fernando Henrique Cardoso também aplicou um estelionato eleitoral e chegou a patamares baixíssimos de aprovação. De maneira análoga foi alvo de uma campanha –no caso liderada pelo petismo– para ser retirado da Presidência.

O PT ao pedir o impeachment de FHC estava sendo de alguma forma golpista? Sim, de alguma forma. O “Fora FHC” era uma palavra de ordem que atropelava mediações e pregava a derrubada do governante. Nada de extraordinário, quando se pensa na vocação autoritária –e também golpista– da esquerda. A mudança do poder pela insurreição armada ainda é um velho mito revolucionário que sobrevive no imaginário de dirigentes e militantes.

Mas sem dúvida em nossa América Latina a tradição golpista da direita é mais bem-sucedida, uma vez que injunções históricas conhecidas levaram-na a contar costumeiramente com o apoio das Forças Armadas. Mas temos também os levantes mais pragmáticos –aqueles que visam sobretudo as vantagens econômicas que a ocupação do Estado pode propiciar.

Seja como for, subsiste um substrato golpista na política brasileira, embora sublimado pela implantação da democracia, que tem se revelado duradoura e bem-sucedida, deixando para trás a crônica de quarteladas e reviravoltas característica de Repúblicas de bananas. Não se vislumbra hoje a possibilidade de uma intervenção militar que quebre a ordem democrática –e um improvável governo com esse perfil não duraria cinco minutos diante das reações internas e das pressões internacionais.

O PSDB, que tem dado mostras de desorientação, com períodos de euforia e alguns brevíssimos interregnos de sensatez, chegou à sua convenção no fim de semana animado com denúncias que poderiam proporcionar um caminho juridicamente defensável para depor a presidente. Depois de votar de maneira irresponsável contra seu próprio programa e os interesses do país, de ter defendido o impeachment e voltado atrás, os tucanos resolveram se preparar para “em breve” ser situação.

A cena que vem à mente é a dos bastidores do mundo esportivo. A política nacional, nesse Fla x Flu, desce ao “modus operandi” da cartolagem. A isso, chegamos: voltamos a ser o país do futebol, não pelo que jogamos mas pelo padrão Fifa de nossos homens públicos e de suas articulações.

Nessa arena, o PSDB deixou claro que sua jogada é ganhar no tapetão. Ao menos foi o que disseram seus luminares na convenção, alguns com mais outros com menos brilho. O time tucano quer uma virada de mesa e, para isso, vai usar contra a presidente alguns dispositivos do regulamento que todos, inclusive seus filiados, descumprem regularmente à luz do dia.

Para reforçar suas posições, este que um dia pretendeu ser um partido social-democrata, estabelece negociações com Eduardo Cunha, essa espécie de Eurico Miranda nos dias de glória, sobre quem já se conhece o suficiente, embora ainda não tudo.

Mesmo que a ideia possa ser mais pressionar do que realmente antecipar o final do mandato de Dilma, o PSDB envereda por um caminho perigoso. Uma investida persistente na tentativa de afastar a petista poderia ter consequências graves, e ainda não bem avaliadas, para o país.

Não seria em hipótese nenhuma um processo pacífico. A mobilização da militância e das entidades que defenderiam a presidente e das forças que apoiariam a virada de mesa no tapetão poderia nos levar ao ápice de uma escalada de radicalização e intolerância que precisaria na verdade ser contida, moderada e não excitada.

 

Marcos Augusto Gonçalves (É editor da ‘Ilustríssima’. É autor de ‘Pós Tudo – 50 Anos de Cultura na Ilustrada’ e de ‘1922 – A semana que Não Terminou’. Escreve às terças,
a cada duas semanas)

Fonte: Folha online

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