Carta para minha família de vida.

A imagem foi escolhida pois foi inspiradora para as turbulências e calmarias destas palavras

A imagem foi escolhida pois foi inspiradora para as turbulências e calmarias destas palavras

A ideia que norteia as próximas linhas é tentar, em poucas palavras, dialogar com minha família (em especial minhas sobrinhas, que por ter as mulheres como maioria justifica o uso do gênero feminino para tratar de todos) sobre experiências e desafios que tive nestes anos e reflexões que me surgem às vésperas de completar 40 anos.

Para iniciar, gostaria que estas palavras não fossem encaradas como um sermão ou guia para nada, são humildes reflexões de um tio/irmão/filho/amigo que ama muito suas sobrinhas e família e gostaria de trocar ideias e pensamentos. Faço isso pois estou distante fisicamente e temos poucas oportunidades de conversar sobre estas questões. Eu não sou exemplo para nada neste mundo, não quero indicar nada, somente ajudar se for possível. Encarem como sugestões, pois uma sugestão é somente uma possibilidade. Se quiserem podem considerar um gesto de retribuição a todo amor que recebo de vocês.

Gostaria de começar pedindo a vocês que não se subestimem e nem se limitem pelo medo.

Uma lembrança que me ocorre neste momento é de diálogos, estes que se repetiram por diversas vezes durante a minha adolescência em Cachoeira do Sul, onde tanto adultos quanto jovens afirmavam que o filho de um mecânico jamais poderia ir muito longe. Na verdade, esta é uma lógica determinista impregnada de preconceito social e que desconsidera as potências humanas.

A classe dominante que possui ou controla os meios de produção não quer perder seus privilégios e lucros. Ela cria um ambiente onde as relações estão hierarquizadas e se banaliza a regra que para a classe dominante tudo é possível e para a classe trabalhadora é negado tudo.

Não desvalorizem os ensinamentos dos seus pais, familiares e amigos.

Por vezes me peguei durante a juventude questionando conversas, valores e princípios que aqueles que amam me repassaram. Para o meu período etário creio que isso não foi algo ruim. Digo isso pois a juventude é um momento em que o indivíduo precisa refletir sobre sua existência e questionar a realidade para construir sua própria identidade.

Ao longo dos anos percebi que cada um, dentro do seu contexto e de suas possibilidades, tentou me presentear com seus conselhos por amor. E a todos eles eu agradeço imensamente.

Hoje, depois de muita batalha, consigo fazer o doutorado. Não será fácil e nem deve ser, pois aquilo que nos desafia nos faz superar nossas próprias limitações. Mas ainda lembro-me do meu mecânico predileto, o meu Pai, me falando para “não descuidar dos estudos”, pois seria um tesouro que ninguém poderia furtar.

Carrego este conselho comigo e nos momentos de maior dificuldade da minha vida tenho ele como fortaleza. É uma lembrança boa, sincera e inspiradora. Não sei se meu Pai tinha consciência do efeito desta frase e como ela me impactou (e ainda impacta), mas isso também me ensinou a entregar aqueles que amo o meu melhor, o sentimento mais sincero e se possível, inspirador.

Por isso gostaria também de pedir perdão pelos momentos onde fui duro, insensível e grosseiro. Digo isso para que fique claro que tenho certa consciência de quem sou e tento diariamente melhorar como filho, amigo e estudante. Mas não é fácil!

Não quero de forma nenhuma justificar meus erros, mas queria explicar o contexto para que algumas coisas possam ficar mais claras – e também para falar, pois nunca contei isso a ninguém.

Parei agora para pensar sobre a razão que me leva a fazer isso, ainda não sei direito, mas talvez eu ainda não tenha me permitido estar totalmente aberto aos outros, sempre fui muito defensivo e isso talvez me ajude de alguma forma… Quem sabe?.

Nasci em uma cidade pequena do interior do Rio Grande do Sul, fui muito amado e lembro bem disso durante minha infância e adolescência, mas também sempre tive reações adversas às ditas “regras da sociedade”.

Lembro que nos primeiros dias de aula em uma escola particular uma senhora disse que eu deveria escrever com a mão direita, pois “ser canhoto não era uma coisa boa”. Por sorte, a minha então professora Elizabeth (mesmo nome de uma tia que amo muito e sinto muitas saudades) me acolheu e não permitiu que essa violência fosse cometida contra mim. Em meus estudos históricos posteriores pude ver que milhares de jovens foram violentados (entre eles o meu irmão) por uma irracionalidade mítica que comparavam os canhotos àqueles que estavam “do lado esquerdo de deus”, ou seja, os não eleitos, os párias (excluídos, marginais, marginalizados, proscritos, exilados, desclassificados…).

Minha família e meus amigos sempre foram (e são) amáveis e acolhedores, mas para a sociedade eu sempre fui (e sou) um pária. E isto não me incomoda, pelo contrário, é uma grande vantagem.

Nesta mesma escola onde iniciei meus estudos conheci o preconceito, a humilhação de estar em uma escola da classe dominante e ser pobre. Enquanto meus colegas e professores viviam em um contexto social de viagens, livros, melhores brinquedos eu e minha irmã estávamos em outro contexto.

Não nos faltava o essencial para uma vida, mas estávamos muito distantes da lógica social da maioria daquelas pessoas. Uma lembrança que tenho foi de um “amigo secreto” (acho que era 1ª. ou 2ª. série) da sala onde eu tirei a minha professora. Lembro que a troca de presentes era legal e eu estava muito constrangido, pois o meu presente para ela era um pacote de salgado “Fandangos”, que era o que meus pais conseguiram comprar naquele momento. Naturalmente, meus colegas reagiram dentro das possibilidades e lógica de classe deles, conforme tinham vivências ou foram ensinados. Até a 4ª. série isso sempre apareceu, pois eu não fazia parte daquele contexto.

Fui pária porque fui adotado por uma mulher que não me pariu biologicamente. Uma formação familiar que poderia ser considerada pela classe dominante como “amoral”, contra alguns princípios que eles inventaram e ao mesmo tempo divinizaram. E aqui eu deveria investir milhões de páginas de agradecimentos a minha Mãe adotiva e meus irmãos. Mas farei isso em outro momento.

Agora,  gostaria de relembrar um momento que aconteceu quando eu tinha aproximadamente 11 anos, momento este em que tive muito medo do mundo, me sentia muito inseguro e assustado e a Minha Mãe Nara não me falou nada, apenas me abraçou, me acolheu, e fez com que eu me sentisse muito amado e protegido.

Ser adotado desta forma foi uma vantagem incrível para entender que a moral burguesa da época idealizava as relações familiares e sociais a partir de fundamentos econômicos e religiosos (ou ambos) e eu baseei meu conceito de família em uma relação de identidade humana, onde as relações consanguíneas ou as idealizações míticas são somente a aparência do real. Amo muito meus irmãos, me preocupo com eles, quero sempre ajudar no que for possível. Nós construímos isso juntos e isso se tornou tão sólido por ser muito verdadeiro. Aqui não romantizem muito, pois como qualquer relação entre irmãos teve briga, choro, risada e alegrias, o que foi ótimo!

Minha Mãe biológica Berenice sempre teve suas limitações fruto de uma questão psicológica (vou entender se meus irmãos ficarem bravos por eu estar comentando isso, mas acho necessário). Fico ressentido somente de ter descoberto estas limitações somente próximo aos 22 anos, o que me fez compreender muitas coisas e também ter que pedir muitas vezes perdão. Naquele momento as doenças psicológicas eram confundidas com questões morais e abordadas sempre em tom pejorativo, um atraso societário que agora pelo avanço da ciência e da racionalidade conseguimos compreender melhor.

Fui (e sou) pária ao escolher uma ideologia progressista que pensa e age em favor dos trabalhadores. Ao assumir a defesa da classe trabalhadora como função social angariei desafetos entre aqueles que acham que o mundo não pode mudar, entre aqueles que bajulam seus opressores, entre alguns que não se interessam em conhecer a realidade concreta e se satisfazem com a aparência do real.

Fui e ainda sou pária por escolher uma profissão não reconhecida financeiramente. Cansei de ouvir que ser professor “não dá dinheiro”, porém esta não é minha lógica de vida. Sei também que até agora tenho sobrevivido de trabalhos que não são necessariamente os de um professor de sala de aula, mas eu não vou desistir.

Fui e sou pária pela escolha da ciência e da racionalidade. Por tentar melhorar como pessoa por vivências e estudos. Neste momento acho importante que haja bom senso na significação do acúmulo de estudos de alguém ou de sua capacidade de assimilação de algum tipo de informação ou ação prática. O essencial é conseguir viver entre pessoas de diferentes capacidades, com tolerância e respeito. É um processo individual, uma escolha para a vida, não cabe julgamento.

Há alguns dias defendi minha dissertação de mestrado, um processo natural que me deixou muito feliz por conseguir fazê-lo (como disse a minha irmã e minha Mãe, eu mesmo nunca achei que seria possível). Dias depois estava indo visitar uma pessoa amiga e quando outras pessoas souberam que eu havia terminado o mestrado senti que começaram a me tratar de forma diferente. Não era um contexto acadêmico ou escolar, era uma reunião de pessoas para conversar. Eu realmente entendo que aquelas pessoas estavam de certa forma me fazendo um elogio, mas para mim, naquele contexto social o mérito acadêmico não me diferenciava de qualquer um que estava ali, não me tornava uma pessoa melhor que qualquer outro. Fiquei um pouco incomodado e acabei em certos momentos optando por não falar sobre minha vida acadêmica. Quando me perguntam em certos lugares o que faço na universidade me limito a falar que “faço umas pesquisas, nada demais”.

Não se punam por serem quem são. Digo isso para que vocês possam refletir se estão seguindo os seus próprios sonhos e desejos ou os sonhos de alguém. Vocês são produto das possibilidades da realidade (do antes e do agora como processo) e de suas próprias escolhas. O nosso passado jamais pode ser considerado uma âncora que nos prende a algo ou ser comparado com algo abstrato. Ele é real e precisa ser entendido com profundidade para ser nossa base e também mola propulsora para novos desafios.

Vivemos em uma sociedade machista e hipócrita, combatam o machismo todos os dias e com todas as suas forças. Avançar uma consciência e prática social de igualdade ainda é um desafio permanente, pois o machismo assassina e violenta milhares de mulheres todos os dias. Digo a vocês que não é fácil identificar o nosso próprio machismo e combate-lo, mas em uma sociedade patriarcal, capitalista que convive com a exploração de um ser humano por outro ser humano as vezes secundarizamos aquilo que tem importância central. Este é um compromisso para aqueles que defendem a igualdade e a justiça, seja para honrar a memórias das milhares de mulheres que lutaram durante estes últimos séculos, seja para criar um contexto mais desenvolvido para as que virão.

Não se envergonhem de errar. A vida é um processo permanente de aprendizado e todos nós temos nossas limitações.  Eu por muito tempo fui uma pessoa bruta e grosseira, mas era assim também como uma defesa daquilo que eu considerava uma agressão contra mim. Eu saí da casa dos meus pais ainda muito jovem e possuía uma aparência de ser uma pessoa muito mais jovem. Muitas vezes fui chamado pejorativamente de “colono” ou “guri do interior”, alguns visavam me diminuir, outros somente me diferenciar dos demais. Naquela época eu não tinha as vivências que tenho hoje, fiz o que tinha condições na época e entendi isso faz pouco tempo, quando tive que reviver estas questões para superar minhas dificuldades e limitações pessoais.

Errei muito, as vezes penso que mais do que deveria, mas isso tudo me ajudou. Muitas vezes fui injusto e limitado, poderia ter feito melhor, poderia ter sido justo, poderia não ter sido tão limitado. Contudo, hoje encaro isso como parte do meu processo. E é preciso encarar de desta forma, pois sempre me culpo muito pelos meus erros e isso sempre me limitou nas relações sociais.

Lembro que em uma reunião um dirigente político me ensinou que “ser dirigente é ver em perspectiva”, entendendo que este é um processo humano concreto e que  ver em perspectiva é também saber da sua condição humana e do seu processo histórico, escolhendo caminhos, fazendo autocrítica e se permitindo desenvolver suas potências humanas. Temos que ver o real ultrapassando o limite do imediato.

Lembrem que nosso processo não é solitário, pois somos também produto das nossas relações. Minhas inseguranças pessoais sempre me fizeram buscar nas outras pessoas aquilo que eu achava que não possuía (as vezes possuía e não via, mas na maioria das vezes não possuía mesmo). E nestes quase 40 anos digo a vocês que encontrei pessoas maravilhosas pelo caminho. Não vou citar nomes para não ser injusto com tantas pessoas que me ajudaram a trilhar este caminho.

A maioria dos meus dirigentes políticos (pessoas que me instruíram no campo político) foram exemplos e minhas referências positivas desde muito cedo. Quando entrei no movimento estudantil os meus dirigentes eram muito bons de oratória e eu os copiava para não passar vergonha quando chamado para discursar ou falar em uma reunião. É óbvio que não foi somente neste quesito que eles me ajudaram, foram conversas, conselhos, brigas, discussões, enfrentamentos, construção de projetos, debates teóricos e tantas outras questões que durante muito tempo faziam parte da minha formação pessoal e que devo a cada um deles pelo esforço que fizeram em ensinar aos mais jovens.

A maioria das minhas chefes (na maioria mulheres) e colegas de trabalho nos empregos da vida também me ensinou muito. São pessoas da melhor qualidade humana, cada uma com suas particularidades, mas entre elas é preciso destacar a sensibilidade, a coragem e uma capacidade incrível de incentivar as pessoas a desenvolverem o seu melhor. Tenho uma gratidão infinita por estas pessoas e pelas relações que construímos e, neste momento, ao recordar só me surgem na memória boas lembranças. Mesmo nos contextos de tensão e dificuldades tínhamos um ponto de unidade que sempre foi fazer todo o esforço possível para melhorar a vida do nosso povo – em todos os casos.

Tive (e tenho) grandes professores como referência e tenho milhares de lembranças de momentos de profundo aprendizado, seja das situações teóricas mais complexas até mesmo de atitudes que podem ser consideradas simples, mas muito acolhedoras.

Morei em diversas cidades e creio que fui adotado em todas estas cidades por pessoas que eram amigas e se tornaram parte da minha família de vida. Acho que agora expandi o conceito de família e posso ser questionado nos debates teóricos. Mas isso é irrelevante. Creio que o termo “família de vida” consegue abarcar o sentimento que tenho por estas pessoas que estão espalhadas pelo Brasil e muitas delas estão bem próximos de mim. Seja na formação política, partido, movimento social, nos empregos, na graduação em História, no Mestrado, no Muay Thai sempre tive pessoas com as quais me identifiquei profundamente, que me acolheram, que dividem ideais e sonhos, que considero como família. Pensando agora acho que a maioria destas pessoas não sabe o quanto me fizeram e fazem bem. Espero estar retribuindo de alguma forma.

Não desistam das melhores pessoas, mesmo nos piores momentos. Não digo isso em razão de não ter desistido de alguém. Falo isso pois todas as pessoas que estou citando aqui em algum momento da vida não desistiram de mim, todos (literalmente falando) desta confusa e expandida família de vida.

Como sugestão final destes pensamentos eu creio que preciso falar de paixão e amor. Mesmo tendo plena consciência que não sou a melhor das pessoas para falar de relacionamentos (o meu histórico de vida explica esta afirmação), eu, mesmo assim, gostaria de falar sobre. Não vou filosofar sobre os conceitos, não é isso.

Não vejo possibilidade de vida sem amor e paixão. Não estou falando de sentimentos que foram padronizados ou vendidos como produtos idealizados de uma vida romantizada e profundamente fora da realidade.

Falo de identidade, cumplicidade, carinho, afeto, troca, desafio e segurança.

Se eu pudesse falar com todas as pessoas com que me relacionei, mulheres maravilhosas que pude conviver por algum tempo eu as agradeceria por tudo (por tudo mesmo) e pediria desculpas por não ter sido uma pessoa melhor. Falo isso pois é muito fácil  imputar nas outras pessoas erros que por vezes são nossos. Uma pessoa que tenho profundo carinho me disse que eu não sou raiz, sou folha. Talvez até o momento seja isso, para frente terei de viver o processo.

Por isso não vejo possibilidade de vida sem amor e paixão. E não posso restringir isso às relações conjugais uma vez que tudo que escrevi até agora são símbolos de amor e paixão, cada um em seu contexto, dentro das possibilidades daquele contexto. Somos parte de um todo de múltiplos processos que nos tornam um indivíduo único e totalmente identificado com a coletividade por nossa condição humana.

Espero não ter chateado vocês com uma mensagem tão extensa.

Espero ter ajudado em algo no agora e, se possível, no futuro.

Podemos conversar mais depois.

 

Obrigado por fazer parte da minha vida, seja em algum momento ou em grande parte, nestes últimos quase 40 anos.

 

Amo vocês, minha família de vida!

 

Marcio Bernardes de Carvalho

Havana, 23 de março de 2018.

 

 

 

 

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