Como destilar peçonha provinciana

veneno-cobraPor Luiz Geremias e Márcio Carvalho (CARVALHO, M. B. ) em 26/06/2007 na edição 439

 

Henry Louis Mencken escreveu que, na imprensa, ‘deve ser óbvio que a busca da verdade, de toda a verdade e de nada mais que a verdade é comumente mitigada pela política do jornal’. Isso significa dizer que a imparcialidade jornalística está comumente acima da verdade, da busca da verdade.

 

Não sabemos se é possível a generalização de Mencken. Não podemos saber se é fato que em todos os jornais isso acontece. O que salta à vista, porém, é que isso ocorre de verdade. Pudemos observar um bom exemplo na coluna de um articulista do jornal curitibano Gazeta do Povo. Mais uma vez, essa gazeta vem nos mostrar algum bom exemplo do que é mau em jornalismo.

 

O fato

 

Em sua coluna de sexta-feira (22/6), o articulista Celso Nascimento escreveu que quatro escolas paranaenses constam entre as piores do país. A informação procede, pois o Ministério da Educação disponibilizara, um dia antes, uma relação na qual as escolas estavam mal qualificadas segundo uma avaliação chamada Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB). Até aí, vale o escrito, embora se devesse levar em conta o fato de que pelo menos duas dessas escolas estão contestando os dados do ministério. Esse é um fator importante, pois recentemente o mesmo ministério classificou a cidade paranaense de Ramilândia como tendo o pior ensino do país e, posteriormente, assumiu que tinha errado.

 

O que não vale é o uso feito da informação. O articulista usa o índice IDEB para atacar o governo do estado. Para ele, o fato de haver quatro escolas no ranking negativo desqualifica o trabalho da Secretaria de Educação do estado. Mas há dois problemas a serem considerados, fatores que deveriam ter sido levados em conta na ‘análise’ do colunista.

 

Primeiro problema

 

As quatro escolas são vinculadas a prefeituras, no entanto o articulista atribui ao governo estadual a responsabilidade pela suposta má qualidade do ensino nessas instituições. Isso é de estranhar, pois um analista político deve saber como funciona o estado. Não o do Paraná, em particular, mas o Estado, o conjunto de instituições que governam e administram uma nação, um estado federativo ou uma cidade.

 

Se as escolas são municipais, o estado não tem ingerência direta sobre elas. Os municípios têm autonomia para organizar seu sistema de ensino. Com um mau resultado em uma avaliação nacional, o governo estadual pode voltar suas atenções para auxiliar na melhoria do ensino em um dado município ou em uma escola em particular. É o que já deve estar acontecendo, no caso em tela.

 

Segundo problema

 

Um articulista político deve estar bem informado. Dois dias antes – apenas dois dias antes – o governador do Paraná esteve em uma solenidade na qual recebeu uma homenagem exatamente pelo reconhecimento do Ministério da Educação à alta avaliação obtida, no mesmo índice, pelo ensino público do estado. O Paraná foi o que obteve a maior média de resultados no ensino de 1ª a 4ª série.

 

Celso Nascimento, no entanto, desconhece tudo isso. Não sabe como funciona um governo estadual ou municipal, e não sabe da avaliação positiva do mesmo ministério em relação às escolas estaduais – as escolas que o governo estadual realmente administra. Mas, aparentemente, não à toa.

 

Risco de contaminação

 

Percebemos que é um bom exemplo do mau jornalismo. Se é verdade que um articulista tem espaço para expressar a sua opinião, não se pode admitir, porém, que se mostre deliberadamente ignorante de fatos como os citados para formular seu parecer sobre a educação no Paraná. Distorceu a verdade para destilar uma espécie de peçonha opinativa.

 

É um bom exemplo de como a política do jornal contamina a interpretação do fato, da verdade. AGazeta do Povo vem há muito demonstrando, em sua linha editorial, que não gosta do governador. Dizemos ‘não gosta’ porque bem parece isso, um pequeno capricho odiento, típico das quizilas de província, das rixas de vizinhos. Não se trata de uma oposição de propostas, de conceitos de como gerir o estado, de críticas concernentes. Não se trata nem sequer de uma oposição.

 

Trata-se, isso sim, de uma forma arcaica e bitolada de pensar o compromisso da imprensa com a sociedade. Esta, a razão de ser de um veículo de comunicação, acaba prejudicada no seu direito de ser bem informada. Acaba – pior – correndo o risco de se contaminar com a pestilência provinciana que escorre das páginas da Gazeta do Povo.

 

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PS: No domingo (24/6), o mesmo jornal publicou matéria – com direito a manchete de primeira página – afirmando que o governo do estado comprou televisores para instalar nas salas de aula das escolas e não os distribuiu. ‘Quatro mil tevês para as escolas encalhadas em depósito’, dizia a manchete. Apuramos o fato e descobrimos que as tais tevês começaram a chegar da fábrica há apenas quinze dias… Francamente.

 

PS 2: Um mero contato com os dirigentes de três das quatro escolas mal avaliadas é suficiente para suspeitar, seriamente, que houve problemas na transmissão de dados relativa aos índices de aprovação e reprovação. É bastante improvável que essas escolas tenham aprovado apenas um ou dois alunos conforme mostra a planilha do Ministério da Educação. A Gazeta do Povo, ou pelo menos o articulista, podia ter se dado a esse trabalho… não é tão difícil assim.

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Respectivamente, psicólogo, jornalista, mestre em Comunicação e Cultura; e estudante de História

 

Fonte: http://observatoriodaimprensa.com.br/feitos-desfeitas/como-destilar-peconha-provinciana/

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