Escola sem “partido” – a fina flor da imbecilidade política

anen0Verieli Della Justina e Marcio Carvalho*

 

As aspas estão propositalmente na palavra “partido”. Uma escola que não toma partido, pessoas que não se posicionam, omissão e subordinação. Essas são as premissas de um movimento que incentiva “denúncias” aos professores que tratarem da luta de classes em suas aulas. Afinal, o opressor precisa do silêncio dos oprimidos. Como diria François La Rochefoucauld: “O silêncio é o partido mais seguro de quem desconfia de si mesmo”.

O movimento acusa professores e instituições de ensino de manipularem o pensamento dos estudantes, realizando uma suposta doutrinação esquerdista. Porém, ao contrário da aparente simplicidade e até certa ingenuidade que sugere o mesmo, não é possível compreendê-lo sem ampliar o contexto histórico e, ironicamente, se valer de uma característica da esquerda: analisar a complexidade dos acontecimentos políticos de uma sociedade.

Parece ser um risco pedir para que pessoas que se orgulham de uma postura conservadora reconsiderem e analisem as expressões que utilizam, exemplo de “ideologia de gênero”. (Como se alguém pudesse lançar a outro “uma ideia sobre a sua própria sexualidade e assim essa se alterasse”). Portanto precisamos aqui de outra característica da esquerda: a persistência.

São muitos os pontos que precisam ser desmontados, mas o principal aqui é que seja buscada a motivação geral do movimento e dos subsequentes projetos que estão em análise por todo o Brasil.

O “escola sem partido” defende a escola como espaço de conteúdos estéreis, “neutro”, com o mínimo de vinculação com a realidade. Qual seria o resultado de uma educação tão robotizada? A resposta expõe um dos objetivos do pensamento conservador brasileiro: quantidade generosa de trabalhadores dóceis, que dão a vida em seus trabalhos massacrantes e agradecem por isso. Vamos pensar mais sobre a tal “neutralidade política”? Desmond Tutu, arcebispo da Igreja Anglicana consagrado com o Prêmio Nobel da Paz por sua luta contra o Apartheid, afirmou que “se você é neutro em situações de injustiça, você escolhe o lado do opressor”. É essa a neutralidade que os pseudo-pensadores estão querendo nas escolas?

E sobre a pérola “neutralidade ideológica”, o que pensar? Antoine Louis Claude Destutt de Tracy ao publicar Eléments D’Idíologie (1801-1815), definiu a mesma como “estudo científico das ideias”. Bom, neutralidade ideológica só pode significar então o ato de não estudar nenhum tipo de ideia, ou seja, os nobres promotores de tal movimento conseguiram transformar em texto e proposta, de forma floreada, o conceito de “imbecilização”. Mas as questões não se resumem somente a isso.

Vamos analisar a palavra “doutrina”, segundo o site Origem da palavra: Do Latim DOCTRINA, “ensinamento ou conjunto de ensinamentos”, de DOCTOR, “aquele que ensina”, de DOCERE, “ensinar”.  Ao analisar a etimologia da palavra surge uma questão: Seremos proibidos de “ensinar”?

Vale lembrar que existe, por parte dos promotores de tal lei ou movimento, um “oportunismo de contexto”. Segundo a pesquisa CNT/MDA sobre confiança nas instituições, os partidos políticos perecem com 0,1% de confiança (pesquisa realizada de 12 a 16 de julho de 2015). Em um cenário de descrédito geral das instituições, em especial dos partidos, um projeto deste pode, num primeiro momento, parecer até viável, mas, com certeza, não é pelo seu mérito, e sim por uma sensação que encontra eco e guarida principalmente nas instituições que temem uma análise mais aprofundada das suas práticas, em especial, a mídia. Neste contexto, quando algumas pessoas ouvem a expressão publicitária “escola sem partido” tendem, num primeiro momento e sem a mínima reflexão, a percebê-la como positiva, não pelo mérito do projeto, mas por um contexto externo que a influencia.

Outra acusação do movimento é de que os professores “demonizam o capitalismo”, porém, um sistema econômico que tão claramente expõe sua crueldade com o sofrimento de milhões de pessoas no mundo, precisa ter, no mínimo, suas regras discutidas por quem a ele está sendo lançado.

Ao resgatarmos a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional é necessário pontuar algumas questões sobre “os princípios do ensino” (contidos no Art. 3.o da referida), a saber: II – liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar a cultura, o pensamento, a arte e o saber; III – pluralismo de ideias e de concepções pedagógicas; IV – respeito à liberdade e apreço à tolerância. Resumindo é preciso que a escola apresente o conjunto de ideias e ideais que a humanidade já desenvolveu, não apresentá-las é que seria o erro.

Marx e Engels (pronto, falamos em Marx os reaças gritarão: comedores de criancinhas (sem nunca ter lido uma frase dos autores) foram categóricos no manifesto: a história de todas as sociedades que existiram até hoje é a história da luta de classes. E, numa luta, a situação do adversário acaba por influenciar as ações do seu oponente. Um passo à frente do proletariado gera uma reação da burguesia, um avanço da burguesia deve gerar no proletariado uma resposta. Como fossem ondas, essas ações e reações nos ajudam a ler os possíveis avanços ou retrocessos sociais.

Portanto, imaginemos que essa onda da burguesia seja já uma resposta ao nosso avanço, talvez por nós mesmos subestimado. Entendemos que existem vários problemas que ainda merecem nossa total atenção, e com certeza não são os partidos e suas ideologias, são “os partidos e a falta de ideologia”, falta de projeto de nação, falta de opinião sobre os problemas da sociedade. São esses os problemas que merecem nossa atenção.

Parece que a motivação real do projeto/movimento é criar um ambiente propício para perseguição e limitação do debate de ideias.  Querem criminalizar a ideologia, querem criminalizar o amplo debate de ideias e projeto de sociedade.

Sigamos em frente, dando aos alunos o conhecimento necessário para questionar o sistema, o governo e tudo mais que eles acharem necessário.

 

 

 

* = Verieli Della Justina, Pedagoga, Professora do Ensino Fundamental e Marcio Carvalho (CARVALHO, M.B.), historiador

 

Referências:

Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional – Disponível em http://portal.mec.gov.br/arquivos/pdf/ldb.pdf . Acesso em 15/11/2015

Resultados da 128ª Pesquisa CNT/MDA – Disponível em http://www.cnt.org.br/Paginas/Agencia_Noticia.aspx?noticia=pesquisa-cntmda-128-divulgacao-21072015 . Acesso em 15/11/2015.

Site “Origem da Palavra” – Disponível em http://origemdapalavra.com.br Acesso em 15/11/2015

 

Comments

  1. By Fabrício mendes

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