Gabriela Pugliesi: a “camarotização” da vida

por Marcos Hiller | 9 janeiro 2015

Tudo é esteticamente calculado e tratado: os enquadramentos, os ângulos, as matizes de cores, as poses, as marcas, os rótulos.

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Todas as fotos desta matéria foram tiradas dos Instagrams citados na mesma

 

O tema da redação do último vestibular da Fuvest foi sobre a chamada “camarotização”, que pode ser entendida como um fenômeno de distinção social promovido por meio de privilégios em acesso a determinados rituais de consumo. Fenômeno esse que não é de hoje, mas que ganhou mais visibilidade tempos atrás por conta do patético Rei do Camarote, que estampou dezenas de capas de revistas e portais da internet. Nunca um novo termo foi tão feliz para definirmos com exatidão a estratégia de apropriação da multimidiática insta-celebridadeGabriela Pugliesi.

Para quem não a conhece, Gabriela Pugliesi é uma moça, uma cidadã-comum há cerca de 2 anos, mas que ganhou status de web-celebridade por conta de seu perfil do Instagram e seu blog Tips 4 Life. Considerada pelo portal Ego (Globo.com) como “um fenômeno do Instagram”, Pugliesi abandonou um emprego formal em uma joalheria para se dedicar exclusivamente ao seu novo emprego online. Suas dicas vão desde receitas light de alimentos, tirinhas com anedotas, fotografias de situações cotidianas e todas vendendo uma espécie de “qualidade de vida”, um termo amplamente utilizado hoje em dia e que, para mim, não diz nada.

O sucesso do seu blog e do perfil no Instagram não só magnetizou uma legião de seguidoras e algumas aparições em capas de revista, mas também uma miríade de marcas de roupas, alimentos funcionais e suplementos que se aproximaram da blogueira com a intenção de que ele fosse patrocinada, e com isso endossasse determinados produtos.

Ao arrastarmos nosso dedo pela tela do smartphone e observarmos as incontáveis fotos de Pugliesi, devemos ter muito cuidado para analisar qual estratégia é essa que ela adota. Consciente ou inconscientemente, ela tem uma estratégia de apropriação do Instagram. Nessas férias de janeiro de 2015, por exemplo, ela está na praia de Trancoso com seu novo namorado, um rapaz barbudo (que já ultrapassa a marca de 100 mil seguidores – no vácuo de sua nova namorada) e que adora publicar fotos em movimentos contorcionistas. [Nota do youPIX – o casal já tem um perfil conjunto, o @RG.4u, que ultrapassa 40 mil seguidores].

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A interação social dele, dela e, sobretudo de qualquer indivíduo em nossa sociedade, surge a partir dos propósitos individuais que incluem, entre outros, os interesses de poder, vaidade e riqueza, disse certa vez Georg Simmel, sociólogo alemão que morreu nos anos 10. E é exatamente o que evidenciamos nas fotos de Trancoso do casal. Muito evidente em todas as fotos um processo de inscrição em imaginários do consumo que denotam elementos de sofisticação, ostentação, bens materiais exclusivos e corpos minuciosa e exaustivamente tonificados. Tudo é esteticamente calculado e tratado: os enquadramentos, os ângulos, as matizes de cores, as poses, as marcas, os rótulos. As fotos em situações clichês também não são economizadas. Nos comentários, vemos uma manada de fãs, seguidoras (na maioria, são mulheres) se inspirando e se espelhando nos dizeres de Pugliesi.

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É muito complexo analisar, interpretar e sair dizendo nossa leitura sobre os conteúdos imagéticos, discursivos e sonoros produzidos pela moça super torneada nascida na Bahia. Mais que isso, ter uma visão crítica de todo esse fenômeno contemporâneo e cair em argumentos simplistas é uma armadilha muito fácil. Por isso, eu procuro me preparar muito para analisar um bom objeto de pesquisa como esse. Eu busco a lupa de autores contemporâneos das áreas de comunicação e consumo para me aproximar desses objetos. Sim, a estratégia de Pugliesi é um objeto de pesquisa tão bom que virou tema de um artigo científico que publiquei em um congresso de comunicação da UFRGS em 2013. Para lê-lo inteiro, baixe meu último livro, ONdivíduos e procure no índice. É um dos últimos textos chamado “Reality Show Fitness”.

O casal-modelo vende de forma impecável uma camarotização da vida. Afinal, nesse universo do hiperconsumo em que estamos inseridos, há uma infinidade de benefícios, bem-estar material, melhor saúde, mais informação. Tudo isso é entregue na palma de nossa mão, de graça e sem necessidade de pulseirinha. Pugliesi contribui para tornar possível uma maior autonomia de suas adoradas seguidoras nas ações cotidianas na busca do utópico corpo-perfeito, namorado-perfeito, roupas-perfeitas, viagens-perfeitas. Afinal, como disse certa vez o filósofo francês Gilles Lipovetsky, as atividades mais elementares da vida cotidiana tornam-se problemas para nós e causam interrogações perpétuas, como a alimentação. O que devo comer? Que horas? De que forma?

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Mas Gabriela Pugliesi é o oráculo com o qual 915 mil seguidoras sempre sonharam e que nos entrega todas essas respostas à la carte. Tudo isso faz muito sentido, pois vivemos numa era onde o agora é a hora da desorganização das condutas alimentares, da cacofonia das referências e critérios. Trata-se não mais tanto de comer quanto de saber o que comer, de tão presos que estamos entre os estímulos gulosos e o modo de nos alimentarmos mal, de consumirmos muito açúcar, muita gordura, corantes, de nos tornarmos obesos em uma sociedade que apresenta como modelo a ditadura da magreza.

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Fonte: Youpix

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