Por que a mudança de regras da internet pode privilegiar ricos

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A neutralidade na internet já morreu nos Estados Unidos, segundo a decisão da Justiça federal americana no início de janeiro, que invalida as regras da Comissão Federal de Comunicações (FCC), que exigiam que os provedores de serviços de internet tratassem de maneira igual todo o tráfego da mesma.

Os princípios de “neutralidade da internet” estipulam que as empresas de telecomunicações não podem bloquear, reprimir ou discriminar o tráfego. Mas a Corte de Apelações do Distrito de Columbia, que defendeu a apelação da Verizon Communications Inc. em relação as regras do FCC, disse que a comissão não tem o direito de regular empresas provedoras de serviço de internet da mesma forma que regula as operadoras de serviços de telefonia. Isso significa que os provedores de internet agora podem fazer acordos livres com alguns serviços, como Netflix e Amazon, oferecendo-lhes um serviço mais rápido.

Se a decisão for confirmada, poderá ter consequências para todos os usuários da internet. O FCC afirmou que pode apelar.

Aqui estão algumas mudanças que podem ocorrer na internet sem a neutralidade, de acordo com especialistas da área. Essa é a internet do futuro – digamos, a Web 3.0, a próxima evolução da internet desde a sua fundação até a Web 2.0 interativa que temos hoje. Avisamos desde já: a coisa pode ficar bem feia.

1. As empresas ricas pagarão altas quantias para ter o seu conteúdo entregue rapidamente. Empresas pobres terão mais dificuldade em ter acesso aos seus clientes.

O efeito mais evidente do fim da neutralidade da internet será que os fornecedores de conteúdo online ricos (sites como Netflix e Amazon) terão cacife para pagar os provedores de internet por uma entrega mais rápida de conteúdo, afirmou Derek Turner, jornalista freelancer que é diretor de pesquisa do grupo de defesa da mídia Free Press. Mas a entrega mais ágil para os sites mais ricos significa uma entrega mais lenta para sites mais pobres. “A internet é um jogo de soma zero,” disse Turner. Se a entrega do conteúdo do Netflix for mais rápida, é quase certo que a entrega dos outros sites será mais lenta.

Turner comparou o cancelamento da neutralidade da internet com a transformação de uma rodovia de mão dupla em uma “estrada de terra” em uma direção e uma “estrada limpa, bem cuidada e com pedágio” do outro. Os sites ricos usam a estrada com pedágio para desfrutar de uma viagem tranquila, enquanto os outros são forçados a usar a estrada de terra. Além disso, acrescentou Turner, os provedores de internet tem o incentivo de “não fazer manutenção na estrada de terra”, pois querem que as empresas paguem para usar a “estrada com pedágio”.

2. Clientes ricos e clientes pobres verão dois tipos de internet muito diferentes.

O outro lado da moeda dessa “estrada com pedágio”, disse Todd O’Boyle, diretor de programas da organização liberal de defesa da cidadania Common Cause, é que os provedores de internet podem começar a cobrar um valor para que seus clientes tenham acesso a certos sites. Isso, obviamente, seria apresentado de forma a favorecer as empresas maiores – um “desconto” poderia ser oferecido para uma banda larga, onde só teriam acesso a um número restrito de sites selecionados pelo provedor, ao mesmo tempo que os provedores de conteúdo poderiam ter que pagar uma quantidade extra pelo privilégio de ter o seu conteúdo visto até pelos clientes que compram o “pacote econômico” dos provedores de internet.

O’Boyle disse que isso já está sendo feito na África. O Facebook está subsidiando o seu conteúdo para assinantes que não podem pagar pela “verdadeira” internet. O accesso ao Facebook provavelmente é melhor do que não ter internet de forma alguma. Mas será que realmente queremos uma segregação de todos os sites entre pobres e ricos?

3. As grandes empresas de hoje serão as grandes empresas de amanhã. A internet sem neutralidade sufocará a inovação.

Com a ausência da neutralidade na internet, as condições iguais para todos que ela proporcionou até então deixarão de existir, disse Turner. No futuro, será muito mais fácil para as empresas que tem muito dinheiro comprar o melhor acesso aos consumidores, deixando os seus competidores para trás. Sem a neutralidade da internet, será muito vantajoso ser um “operador da internet”.

Além disso, afirmou Turner, os provedores de internet poderão favorecer os criadores de conteúdo que lhes oferecerem uma fatia dos lucros bloqueando qualquer tráfego que possa interferir com as receitas do criador. A empresa Comcast tem um histórico especialmente desagradável com essa prática. Em 2012, ela impôs tarifas de dados que impediam o streaming de vídeos online – com exceção dos vídeos da própria Comcast, através do seu provedor de conteúdo Xfinity. A Comcast também tentou bloquear todo o tipo de tráfego compartilhado peer-to-peer em 2007, uma prática que sem a neutralidade da internet, agora se torna legal.

4. Os provedores de internet agirão como ‘curadores’ da sua internet, da mesma forma que o seu provedor de TV por assinatura faz com os canais de TV.

O modelo mais óbvio a ser seguido pelos provedores de internet sem as regras da neutralidade é algo muito parecido com a TV por assinatura, disse Turner. Eles oferecerão “pacotes” que selecionam os sites que você acessa. Os pacotes mais baratos e velozes provavelmente incluirão os sites que pagam mais aos provedores – incluindo os grandes, como Amazon e Netflix. Outra possibilidade é que os provedores juntem sites populares com outros menos populares pelos quais você esteja disposto a pagar. Por exemplo, se você assina um pacote Netflix, talvez seja forçado a usar o site de busca Bing.

Pior ainda, disse Turner, os provedores de internet e grandes empresas podem formar parcerias para oferecer “ofertas exclusivas”. Digamos que Netflix e Time Warner Cable façam uma parceria onde o site Netflix só estará disponível para clientes da TV por assinatura Time Warner Cable (ou o que é mais provável, só estará disponível para os clientes que contratarem a maior velocidade). Esse tipo de negócio pode ser bastante lucrativo para as empresas. Só os usuários sairão perdendo.

5. Informação, ferramentas de organização e redes de ativismo serão luxos disponíveis apenas para os ricos.

Muitas ferramentas que tornaram-se cruciais à democracia norte-americana podem se restringir apenas ao uso dos ricos no futuro. “A informação não deveria ser um artigo de luxo”, disse O’Boyle. Ele disse que há uma preocupação de que se os provedores de internet começarem a oferecer “pacotes de desconto” para clientes mais pobres, eles incluirão poucos (ou nenhum) site de notícias no pacote. Acesso irrestrito às notícias será um luxo reservado apenas para aqueles que puderem pagar mais aos seus provedores.

Essa é uma péssima notícia para os usuários – e ruim também para sites de notícias alternativos, organizações sem fins lucrativos, organizações comunitárias, ativistas e qualquer empreendimento sem um grande aporte financeiro por trás. Sites comunitários e de ONGs que dependem da internet para a comunicação com seus membros, “enfrentarão o desafio de manter uma presença viável se não puderem pagar por um acesso rápido”, afirmou O’Boyle.

Apesar de tudo, o caso Verizon v. FCC talvez não seja de fato o prenúncio do apocalipse da internet; como disse Kevin Werbach da revista The Atlantic, apesar da decisão do tribunal ser desfavorável ao FCC em vários pontos, ela também afirma que o FCC possui a autoridade legal de regular a banda larga. Devido a essa afirmação, Werbach disse que duvida que o FCC permitirá que os provedores de internet operem livremente.

 

Fonte: Brasil Post

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