Sobre arrogância, prepotência e coletividade em Batman vs Superman

Marcio Carvalho*

Filme em cartaz

Filme em cartaz

 

“Na medida em que aumentam seus poderes, o homem se torna cada vez mais pobre”.

Erich Fromm

 

Poderia ter sido somente mais um filme com a família, mas algumas questões e, principalmente, o contexto atual brasileiro me fizeram refletir sobre arrogância, prepotência e coletividade.

O filme aborda, no meu entendimento, uma crise entre forças que creem na sua superioridade e estão completamente distantes daquilo e daqueles que se propuseram a defender.

É possível fazer um paralelo com a crise de representatividade institucional que o Brasil vive atualmente. Instituições frágeis e burocratizadas que não cumprem com efetividade a sua função social. Exemplo clássico disto é a inexplicável indicação de conselheiros de tribunais de contas dos estados e federal. Nunca vi lógica na indicação política de pessoas que deveriam fiscalizar quem os indica.

Uma conversa entre Clark Kent e Bruce Wayne na festa de Lex Luthor pode nos remeter a diversos questionamentos sobre o papel das instituições. Quando Clark Kent questiona a legitimidade de um super herói que “se sente acima da lei” referindo-se ao Batman, é surpreendido com o questionamento sobre a parcialidade do jornal Planeta Diário ao fazer a defesa, sem questionamentos, do Superman.

Estátua da justiça, em Berna, onde são visíveis os aspectos que a devem caracterizar: cegueira, pois deve ser isenta e imparcial; balança, pois deve ter discernimento para avaliar as provas apresentadas; espada, para exercer o poder de decisão.

Estátua da justiça, em Berna, onde são visíveis os aspectos que a devem caracterizar: cegueira, pois deve ser isenta e imparcial; balança, pois deve ter discernimento para avaliar as provas apresentadas; espada, para exercer o poder de decisão.

Pensando bem, os dois tem razão! Ninguém deveria estar acima da lei e por vezes a própria legislação não contempla a maioria da população (vale lembrar que a escravidão, o apartheid e o colonialismo eram protegidos por leis). Ou seja, em muitos casos a lei não se configura como “justiça” ou “igualdade” (Aristóteles em “A Política” definia justiça como sendo uma igualdade proporcional: tratamento igual entre os iguais, e desigual entre os desiguais, na proporção de sua desigualdade).

No caso da imprensa não temos como discordar que o seu papel deveria ser o de informar, a opinião sempre será do leitor/ouvinte/telespectador/internauta. Mas como vivemos em um sistema onde o capital manda e o deus “mercado” impera, como diria um amigo “quem paga a banda, escolhe a música”, ou como virou hit na internet , “podemos tirar, se achar melhor” (caso Reuters, veja aqui).

Aqui entram a arrogância e a prepotência.  Estas características quase sempre andam de mãos dadas e muitas vezes são confundidas, mas é preciso entendê-las para tentar traçar os paralelos. O arrogante não ouve, se sente superior e tão seguro que não precisa dos demais. O prepotente usa seu poder para oprimir pessoas que estão sob sua autoridade.

Os dois principais heróis do filme se distanciam do público que pretendem defender, essa distância aumenta tanto que só os seus sentimentos e necessidades pessoais importam. No caso do Superman o resgate da sua amada Lois Lane não refletiu nenhuma consequência, pois o mesmo afirma que não importava, sua amada estava sob ameaça. Batman decidiu deixar como legado o sacrifício de eliminar o que achava ser um mal (Superman) completamente envolvido pelos seus sentimentos e vivências, não analisando nenhuma outra perspectiva dos fatos ou suas consequências futuras.  Desta forma a arrogância e a prepotência tornaram-se soberba e intolerância, essas duas, juntas, só podem gerar violência e atos de irracionalidade.

Serve para a ficção, serve para a vida real.

Quando a escola não ensina, o judiciário não cumpre as leis e partidos políticos não tem ideologia (35 partidos num país como o Brasil não é sinônimo de pluralidade mas sim de comércio) e estas mesmas instituições se tornam intocáveis, o caminho a ser trilhado será o da arrogância e prepotência (cabe lembrar aqui que em nenhum momento me disponho a fazer generalizações, a citação das instituições é sob a prática da maioria, mas é óbvio que existem exceções).

Aqui entra a coletividade.

Não há nada mais poderoso no mundo democrático que o coletivo. É na diversidade de ideias e ideais que crescemos e nos desenvolvemos. É na contradição que nasce o novo, o inovador, o revolucionário, o transformador.

Posso citar aqui o trabalho de um pesquisador de mestrado e seu orientador como exemplo. Mesmo acreditando na distância emocional entre a pesquisa e seu autor, muitas vezes (creio que na maioria) o orientador expõe a contradição, que pode modificar o raciocínio ou da fortaleza ao pensamento.

direitEm um sindicato é a assembleia o grande fórum. É lá que os trabalhadores podem se expressar e deliberar a partir da construção coletiva de ideias. Em coletivo tudo se fortalece!

Em qualquer instituição democrática são as plenárias (reuniões maiores e mais representativos) os fóruns consideradores de maior importância. É o debate aberto que chega a um meio termo realizável. Entre extremos sempre á uma posição mediadora (aqui não cabe analisar isso como conciliadora mas sim como não extremista).

Confúcio disse em “O Zhong Yong ou A Doutrina do Meio” – “Quando as paixões, tais como a alegria, a cólera, o pesar e o prazer ainda não acordaram, temos nosso eu “central” ou ser moral (chung). Quando essas paixões acordam e cada qual, e todas, atingem uma certa medida e grau, temos a “harmonia”, ou ordem moral (ho). Nosso eu central, ou ser moral, é a grande base da existência, e a “harmonia”, ou ordem moral, é a grande base da existência, é a lei universal no mundo.” Podemos traçar paralelos aqui com Yin-yang (taoismo) e dezenas de outras filosofias que pregam equilíbrio.

Deve ser no interesse da maioria (não de uma elite que pensa que é maioria) que devemos nos abraçar! Este sempre será o porto seguro de qualquer cidadão que defenda a democracia.

Nenhuma instituição numa sociedade realmente democrática pode se sentir “intocável” ou super poderosa. Ao permitirmos tal falha no sistema criamos uma instituição bestializada, anti-democrática que, corrompida, passa a não mais cumprir sua função social e colabora para a disfunção do sistema democrático.

A decisão autocrática quase sempre é descontextualizada, e quando envolve sentimentos e anseios muitas vezes torna-se irracional.

O nosso “Apocalipse” é a intolerância, o fascismo e o desrespeito à Constituição!

Todo poder emana do povo, este é o principio basilar! Se as leis ou instituições não cumprirem sua função de REPRESENTAR A MAIORIA DO POVO devem ser substituídos imediatamente.

Escolhemos a democracia, não a barbárie.

A luta continua!

 

Marcio Carvalho (CARVALHO, M.B.) é Historiador, Mestrando em Educação pela Universidade Tuiuti do Paraná – UTP.

Observação 1: Atualizei a parte de coletividade com as sugestões da minha querida amiga Sheyla Costa, por quem tenho imensa admiração e respeito. Muito Obrigado Sheyla!

 

 

 

 

Comments

  1. By Gabriel

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